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Guardamos os tambores, e agora? Os caminhos para a Reparação Econômica e o Bem Viver no pós-Marcha

A história dos movimentos sociais no Brasil é feita de ápices. Momentos em que a indignação transborda das periferias, ocupa o asfalto e força as estruturas do poder a olharem para nós. A Marcha das Mulheres Negras, que mobilizou o país, foi um desses marcos inesquecíveis. Quem esteve lá lembra do tremor dos tambores, do eco do coro que exigia o fim das violências e da beleza ancestral de ver milhares de nós marchando em direção ao futuro. Foi histórico. Foi necessário. Foi combustível.

Mas o ativismo real não se resume ao dia do ato. A verdadeira política — aquela que define quem vive, quem morre, quem prospera e quem adoece — acontece na segunda-feira de manhã, quando os tambores são guardados, as faixas são dobradas e a rotina da sobrevivência cobra a conta.

Diante do tema deste Julho das Pretas — "Seguimos em Marcha por Reparação e Bem Viver!" —, a pergunta desconfortável que precisamos fazer como coletivo e como sociedade é: o que estamos construindo agora que a poeira da marcha baixou? Como transformamos a energia daquela catarse em infraestrutura real para as mulheres negras na ponta?


Reparação na prática é autonomia de gestão

Historicamente, o conceito de reparação é debatido nas altas esferas acadêmicas e jurídicas. Mas para quem faz cultura, educação e ativismo na base, reparação tem um significado muito mais prático: autonomia.

Não existe reparação real enquanto as realizadoras negras continuarem reféns de uma burocracia institucional que parece desenhada para excluí-las. Quantas vezes vimos projetos culturais brilhantes, gestados por mulheres pretas periféricas, morrerem na praia porque o edital exigia certidões incompreensíveis ou prestações de contas que exigem um doutorado em contabilidade?

Democratizar o acesso ao direito, desmistificar as leis de incentivo e ensinar a ler as letras miúdas dos contratos são atos profundamente revolucionários. Quando o Coletivo Direito para Todos pauta o letramento jurídico e administrativo na base, o objetivo é garantir que a proponente negra seja dona da sua própria narrativa e do seu próprio recurso. Reparação é parar de depender de intermediários para acessar o que é nosso de direito. É transformar a fala da rua em caneta que assina o contrato.

O "Bem Viver" não pode ser um privilégio de classe

Outro pilar urgente que herdamos da Marcha é o conceito de Bem Viver. Mas precisamos ser honestos: o mercado e o próprio ecossistema cultural distorceram essa ideia. Transformaram o Bem Viver em estética de rede social, em autocuidado caro ou em romantização do "trabalho por amor".

No corre diário da produção independente, a realidade é cruel. O ativismo e a cultura na periferia têm sido financiados à custa da saúde mental e física das mulheres negras. O esgotamento (burnout) virou a regra. Trabalha-se até a exaustão para colocar um festival na rua, para manter uma oficina comunitária viva ou para aprovar um edital de R$ 20.000 que mal paga as horas de sono perdidas.

Isso não é Bem Viver. É a engrenagem do capital moendo corpos pretos sob uma roupagem progressista.

Se queremos dignidade, precisamos falar de dinheiro, precificação justa e sustentabilidade. O Bem Viver só acontece quando a conta fecha. Significa criar redes de economia solidária onde o recurso circule entre nós, onde o trabalho de uma designer, de uma roteirista, de uma cozinheira ou de uma monitora negra seja valorizado financeiramente. Saúde mental para quem está na correria da cultura não é luxo; é meta de projeto.


Construindo o motor do futuro

A Marcha nos deu o rumo e a urgência. O momento atual, no entanto, exige de nós a paciência e a precisão da engenharia social. Se a Marcha foi o combustível, a nossa organização diária precisa ser o motor.

O Julho das Pretas deste ano não pode ser apenas um calendário de celebrações sazonais. Precisa ser o espaço onde nos sentamos ao redor da mesa para desenhar as ferramentas de sobrevivência e expansão para os próximos meses. Precisamos monitorar o poder público, cobrar as promessas feitas no ano passado, mas, acima de tudo, fortalecer as nossas próprias estruturas.

Nós, do Coletivo Direito para Todos, acreditamos que a cultura, a educação e o direito são as ferramentas para moldar essa autonomia. Guardamos os tambores na garagem, sim, mas apenas porque agora estamos com as mãos ocupadas construindo a infraestrutura do amanhã. Seguimos em marcha, mas agora, com o motor ligado e a rota traçada por nós mesmas.

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