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Os Erros Mais Comuns em Roteiros Iniciantes e Como Corrigi-los



Escrever um roteiro é uma habilidade que exige estudo, prática e, acima de tudo, reescrita. No entanto, muitos roteiristas iniciantes acreditam que os principais desafios estão relacionados à criatividade ou à originalidade das ideias. Embora esses fatores tenham sua importância, a realidade é que grande parte dos problemas encontrados em roteiros de novos escritores surge de questões técnicas que podem ser identificadas e corrigidas.

É comum encontrar histórias com premissas interessantes, personagens promissores e temas relevantes que acabam não funcionando porque a execução apresenta falhas estruturais. A boa notícia é que esses erros não são sinais de falta de talento. Na maioria dos casos, eles fazem parte do processo de aprendizagem e podem ser superados com estudo e experiência.

Conhecer os problemas mais frequentes é uma das formas mais eficazes de evitá-los. Afinal, entender por que um roteiro não funciona é tão importante quanto aprender o que faz uma história dar certo.

Começar a escrever sem saber qual é a história

Um dos erros mais comuns entre iniciantes acontece antes mesmo da primeira página.

Muitos roteiristas começam a escrever apenas porque tiveram uma cena interessante em mente. Talvez seja uma conversa impactante, uma sequência de ação ou uma imagem visualmente poderosa. O problema é que uma cena não é uma história.

Sem compreender qual é o conflito central, quais são os objetivos dos personagens e para onde a narrativa está caminhando, o roteiro rapidamente perde direção.

Isso costuma gerar textos que começam de forma promissora, mas se tornam confusos após algumas páginas.

Como corrigir

Antes de iniciar a escrita, procure responder perguntas básicas:

  • Quem é o protagonista?

  • O que ele deseja?

  • O que o impede de conseguir isso?

  • O que está em jogo caso ele fracasse?

  • Como ele será diferente ao final da história?

Não é necessário planejar cada detalhe, mas ter clareza sobre o núcleo narrativo evita muitos problemas futuros.


Personagens sem objetivos claros

Histórias são movidas por personagens que querem alguma coisa.

Quando um protagonista não possui um objetivo definido, a narrativa tende a parecer estagnada. O personagem simplesmente reage aos acontecimentos sem tomar decisões que influenciem a trama.

O público acompanha histórias porque deseja descobrir se alguém conseguirá alcançar determinado objetivo. Quando esse objetivo não existe, a tensão desaparece.

Como corrigir

Todo protagonista deve querer algo.

Esse desejo pode ser concreto, como resolver um crime ou vencer uma competição.

Também pode ser emocional, como conquistar aceitação, superar um trauma ou reconstruir uma relação.

O importante é que exista uma direção clara para a narrativa.

Confundir informação com drama

Muitos roteiros iniciantes dedicam páginas inteiras explicando o universo da história.

Personagens conversam sobre eventos passados, regras do mundo fictício ou detalhes da trama de maneira artificial.

Esse fenômeno é conhecido como exposição excessiva.

O problema é que informação, por si só, raramente é interessante.

O público não se envolve porque recebeu dados. Ele se envolve porque existe conflito.

Como corrigir

Sempre que possível, mostre informações por meio de ações e consequências.

Em vez de um personagem explicar que determinada cidade é perigosa, mostre alguém enfrentando os riscos daquele ambiente.

Em vez de longos diálogos explicativos, procure revelar informações durante situações dramáticas.

Criar personagens iguais

Outro erro frequente é construir personagens que possuem exatamente a mesma voz.

Independentemente de quem esteja falando, todos parecem pensar da mesma forma, usar as mesmas palavras e reagir de maneira semelhante.

Isso enfraquece a narrativa e dificulta a identificação dos personagens pelo público.

Como corrigir

Cada personagem deve possuir:

  • Objetivos próprios;

  • Visão de mundo específica;

  • Maneira particular de falar;

  • Valores distintos;

  • Formas diferentes de lidar com conflitos.

Uma boa forma de testar isso é retirar os nomes dos diálogos. Se você não consegue identificar quem está falando, provavelmente as vozes ainda não estão suficientemente diferenciadas.

Diálogos artificiais

Poucas coisas denunciam mais rapidamente um roteirista iniciante do que diálogos que não parecem naturais.

Isso acontece quando personagens falam apenas para transmitir informações ao público ou quando todas as falas soam excessivamente elaboradas.

Na vida real, as pessoas raramente dizem exatamente o que estão pensando.

Elas escondem emoções, evitam assuntos desconfortáveis, mentem, exageram e interpretam mal o que os outros dizem.

Como corrigir

Procure trabalhar o subtexto.

O subtexto é aquilo que o personagem realmente quer dizer, mas não expressa diretamente.

Uma conversa torna-se muito mais interessante quando existe tensão entre o que está sendo dito e o que realmente está acontecendo.

Falta de conflito nas cenas

Muitos roteiros apresentam cenas em que nada realmente acontece.

Os personagens conversam, trocam informações ou realizam atividades cotidianas sem enfrentar obstáculos.

Embora essas cenas possam parecer importantes durante a escrita, elas frequentemente reduzem o ritmo da narrativa.

Como corrigir

Antes de escrever uma cena, pergunte:

  • O que cada personagem quer?

  • Quem está impedindo esse objetivo?

  • O que pode dar errado?

Se não existe conflito, talvez a cena não precise existir.

Personagens passivos

O protagonista não precisa vencer sempre.

Mas ele precisa agir.

Um erro recorrente é construir personagens que passam grande parte da história esperando que acontecimentos externos resolvam seus problemas.

Quando isso acontece, o público sente que a narrativa está sendo conduzida pelos eventos, não pelas escolhas dos personagens.

Como corrigir

Faça com que o protagonista tome decisões.

Mesmo decisões erradas costumam ser mais interessantes do que a ausência de ação.

São as escolhas dos personagens que criam consequências e movimentam a trama.

Conflitos sem consequências

Um conflito só é relevante quando existe algo importante em jogo.

Se o protagonista fracassar e nada realmente mudar, a tensão desaparece.

Esse problema aparece frequentemente em histórias nas quais os obstáculos parecem perigosos, mas nunca produzem consequências reais.

Como corrigir

Defina claramente o que o personagem pode perder.

Pode ser dinheiro, reputação, liberdade, relacionamentos, sonhos ou até mesmo a própria vida.

Quanto mais significativo for o risco, maior tende a ser o envolvimento emocional do público.

Finais apressados

Muitos roteiristas dedicam meses ao início da história e resolvem tudo rapidamente nas últimas páginas.

Como resultado, o final parece pequeno diante da jornada construída anteriormente.

Esse problema costuma surgir quando o autor está cansado do projeto ou quando a estrutura não foi adequadamente planejada.

Como corrigir

O clímax deve representar o momento de maior tensão da narrativa.

As principais questões apresentadas ao longo da história precisam encontrar uma resolução satisfatória.

Isso não significa que tudo precisa terminar de forma feliz, mas o público deve sentir que a jornada teve um propósito.


Apaixonar-se por cenas desnecessárias

Todo roteirista já passou por isso.

Uma cena parece brilhante durante a escrita. O diálogo é divertido. A construção visual é interessante. O momento possui força emocional.

Mas existe um problema: a cena não contribui para a história.

Muitos iniciantes mantêm esse tipo de material apenas porque gostam dele.

Como corrigir

Pergunte:

  • Essa cena desenvolve personagem?

  • Ela avança a trama?

  • Ela aumenta o conflito?

  • Ela fortalece o tema da história?

Se a resposta for "não" para todas essas perguntas, talvez seja hora de removê-la.


Ignorar a reescrita

Talvez este seja o erro mais prejudicial de todos.

Muitos iniciantes tratam o primeiro rascunho como versão final.

Entretanto, os melhores roteiros raramente surgem na primeira tentativa.

A reescrita é parte essencial do processo profissional.

É durante as revisões que problemas estruturais são identificados, personagens ganham profundidade e cenas desnecessárias desaparecem.

Como corrigir

Aceite que escrever é reescrever.

Depois de concluir um rascunho:

  • Faça uma pausa antes de revisá-lo;

  • Busque feedback de leitores confiáveis;

  • Analise críticas com abertura;

  • Produza novas versões.

Quanto mais experiência um roteirista adquire, mais percebe que a qualidade final do texto depende tanto da revisão quanto da escrita inicial.


Escrever pensando apenas no mercado

Atualmente, muitos novos roteiristas começam um projeto perguntando se ele será vendável, se funcionará em plataformas de streaming ou se seguirá tendências populares.

Embora seja importante compreender o mercado audiovisual, criar histórias apenas com base em tendências pode resultar em obras genéricas.

Além disso, tendências mudam rapidamente. Quando um projeto fica pronto, o mercado pode estar procurando algo completamente diferente.

Como corrigir

Procure equilibrar viabilidade comercial e interesse pessoal.

Os projetos que costumam se destacar são aqueles que unem domínio técnico e uma visão autoral clara.

O mercado frequentemente procura histórias que pareçam autênticas, não apenas imitativas.


Comparar seu primeiro roteiro ao trabalho de profissionais experientes

Esse é um erro silencioso, mas extremamente comum.

Muitos iniciantes leem roteiros premiados, assistem a grandes filmes e concluem que nunca alcançarão aquele nível.

O que esquecem é que estão comparando seus primeiros trabalhos a autores que acumulam anos ou décadas de experiência.

Como corrigir

Compare seu roteiro atual com seus roteiros anteriores.

A evolução é um processo gradual.

Cada projeto ensina algo novo sobre narrativa, personagens, diálogo e estrutura.

O objetivo não é escrever uma obra-prima imediatamente. O objetivo é tornar-se um escritor melhor a cada texto.


Conclusão

Os erros presentes em roteiros iniciantes não são obstáculos intransponíveis. Pelo contrário: eles fazem parte do caminho natural de aprendizagem de qualquer roteirista.

Quase todos os profissionais do audiovisual já escreveram diálogos artificiais, criaram personagens sem profundidade ou desenvolveram histórias que não funcionavam como imaginavam.

A diferença está na disposição para estudar, revisar e continuar escrevendo.

Dominar a escrita de roteiros não significa evitar completamente os erros. Significa aprender a reconhecê-los, compreender suas causas e desenvolver as ferramentas necessárias para corrigi-los.

No fim das contas, cada problema identificado em uma página representa uma oportunidade de crescimento. E é justamente esse processo contínuo de aperfeiçoamento que transforma escritores iniciantes em roteiristas capazes de construir histórias cada vez mais fortes, envolventes e memoráveis.

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