Entrevista | Guillermo Rojo: "Festivais como o Papagena lembram que o seu veículo também tem um lugar na estrada"
- Amanda Guilherme

- 5 de mar.
- 3 min de leitura

Conheça a trajetória, os desafios e a visão de Guillermo Rojo, um realizador que transforma as limitações do cinema independente em histórias com um profundo impacto social.
Guillermo Rojo começou a sua formação audiovisual em 2023 na escola espanhola Pixelian. Desde então, escreveu e dirigiu vários curtas-metragens de ficção nos quais explorou gêneros muito diversos. Seu trabalho mais reconhecido até o momento é Apagada, um curta sobre violência machista no contexto da deficiência e da saúde mental que já acumula 40 seleções oficiais e cinco primeiros prêmios.
Após essa experiência, ele apresenta agora, junto com Jesús Cardiel, Inmaculada, um novo projeto no qual mergulha na comédia sem abrir mão do seu interesse em abordar problemáticas que atravessam a vida das mulheres. Nesta entrevista exclusiva para o Festival Papagena, Guillermo nos conta sobre seus processos, desafios e a importância dos espaços independentes.

🎙️ A Entrevista
1. Como você começou a sua carreira como artista audiovisual?
Ainda me custa chamar de “carreira”. Comecei nisso porque gosto, não porque fosse o meu caminho profissional. Na verdade, o curioso é que cheguei ao audiovisual após um acidente em 2023 que me deixou de licença médica por quase dois anos. Nesse intervalo, decidi aproveitar o tempo e estudar na Pixelian. Ali, aos poucos, curso a curso, começou a me dar aquele desejo de contar histórias.
2. Quais foram os principais desafios de trabalhar como artista independente?
No início, ter que fazer praticamente tudo sozinho. Você se torna um homem-orquestra até que começa a conhecer pessoas, a somar colaboradores e a construir uma pequena equipe. Essa transição entre a solidão e a comunidade é um dos maiores desafios… e também uma das maiores recompensas.
3. Como você escolhe os projetos em que participa?
Cada projeto nasce de um impulso diferente, mas todos respondem à necessidade de contar algo e de se divertir no processo. Inmaculada, por exemplo, surgiu como um desafio que Jesús Cardiel e eu nos propusemos: criar um curta-metragem 100% profissional capaz de competir em igualdade de condições com realizadores consolidados no Certame Navarra Tierra de Cine. Quando ficamos finalistas, já não havia desculpas: era hora de arregaçar as mangas e torná-lo realidade.
4. Qual foi a sua obra ou curta-metragem mais memorável e por quê?
Apagada é o que mais me deu alegrias. Foi o primeiro que pude trabalhar com mais cuidado e isso me permitiu focar na história. Mas o mais importante foi a reação do público: tocou em fibras sensíveis e gerou conversas muito emocionantes. Senti que o filme tinha um propósito.
5. Como você concilia a criação artística com os aspectos financeiros e logísticos?
Fazendo o melhor possível com o mínimo. Essa é a filosofia. Ajustar, priorizar e não perder de vista que a criatividade também nasce das limitações.
6. Quais estratégias você utiliza para promover o seu trabalho e alcançar um público fora do seu país?
Eu cuido pessoalmente da distribuição. Seleciono os festivais com muito cuidado porque o orçamento é muito limitado. Com Apagada, fiz um teste inicial no YouTube e superou 100.000 visualizações em dois meses. Depois o retirei para movimentá-lo por festivais e também o compartilhei com associações ligadas à violência machista que organizaram atividades usando o filme. Sair do circuito estritamente competitivo foi o mais gratificante.
7. Que lições você compartilharia com outros artistas independentes que estão começando?Não me sinto com autoridade para dar lições, mas sim um conselho: cercar-se de pessoas com mais talento e mais vontade do que você mesmo. Guardar o ego em uma gaveta. Aproveitar o processo. E ser grato sempre.
8. Como festivais como o Papagena contribuem para o desenvolvimento de novos talentos e projetos independentes?
No meu caso, me dando uma injeção de energia. Para quem está começando, um reconhecimento é como encher o tanque de gasolina: te anima a continuar. Às vezes você se sente como se estivesse andando de bicicleta pela rodovia, vendo passar carros esportivos e caminhões enormes que te jogam para o acostamento. Festivais como o Papagena lembram que o seu veículo também tem um lugar na estrada.
9. Há alguma história ou experiência pessoal que você gostaria de compartilhar sobre a sua trajetória?
Fico com a quantidade de gente boa que conheci pelo caminho. Pessoas que não me deviam nada e mesmo assim me apoiaram. Sentir-me acolhido em um mundo que não era o meu foi uma das surpresas mais bonitas.
10. Que mensagem você deixaria para os artistas que acompanham o seu trabalho ou que estão começando nesta área?
Que não tenham medo de fazer o que quiserem e como quiserem. Que aprendam com quem realmente os ajuda e saibam se despedir de quem só critica. E que, se algum dia chegarem longe, não se esqueçam de quem esteve com eles quando ainda não eram ninguém.



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