Entrevista: Rômulo Dalto (Rômulo RDlove)
- Amanda Guilherme

- 8 de abr.
- 4 min de leitura

Apresentação
Rômulo Dalto Silva, conhecido como Rômulo RDlove, é compositor, cantor e produtor cultural de Alagoinhas/BA, com trajetória marcada pela música autoral e pela valorização da cultura local. Ao longo de sua caminhada, participou da produção de diversos projetos culturais no município, fortalecendo a cena artística e contribuindo para ações de difusão cultural. Como compositor, teve canções gravadas por vários artistas e conquistou reconhecimento por sua atuação e relevância no cenário musical da cidade. Foi premiado como Melhor Compositor de Alagoinhas e também recebeu premiação pelo projeto Stop Preconceito, reconhecido por seu impacto social e cultural no enfrentamento à discriminação por meio da arte.
Perguntas e Respostas
1. Como começou sua trajetória como artista em Alagoinhas?
Minha trajetória artística começou em Alagoinhas, no bairro Barreiro, onde desenvolvi minha identidade musical a partir das vivências da comunidade, das histórias ao meu redor e da minha ligação profunda com a música autoral. Desde cedo, busquei construir um trabalho verdadeiro, com composições que expressassem sentimento, realidade e pertencimento. Ao longo do tempo, fui consolidando minha caminhada como compositor, cantor e produtor cultural. Minhas músicas passaram a ser gravadas por grandes nomes do Nordeste, o que ampliou a visibilidade do meu trabalho e fortaleceu minha atuação, levando a música produzida em Alagoinhas para novos públicos e reafirmando o potencial artístico da minha cidade.
2. O que te motivou a criar o documentário Stop Preconceito?
A necessidade de transformar a arte em instrumento de conscientização. Sempre entendi que o preconceito, o racismo e a violência social são questões que atravessam a vida de muitas pessoas, inclusive dentro das escolas e das comunidades. Senti que precisava criar um projeto que unisse música, audiovisual e reflexão para provocar diálogo, sensibilizar o público e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e respeitosa.

3. Quais foram os principais desafios de produzir um projeto que aborda o racismo e a desigualdade social?
O maior desafio foi tratar temas tão delicados com responsabilidade, verdade e sensibilidade. Falar sobre racismo e desigualdade social exige cuidado com as histórias, escuta atenta e compromisso com a realidade das pessoas que vivenciam essas situações. Outro desafio foi realizar um projeto com profundidade social e qualidade artística ao mesmo tempo, mantendo a força da mensagem sem perder a dimensão humana. Ainda assim, cada obstáculo reforçou a importância de fazer esse trabalho acontecer.
4. Como você vê a relação entre música, audiovisual e transformação social?
Vejo a música e o audiovisual como ferramentas muito poderosas de transformação social. A música toca o emocional, alcança o coração das pessoas, enquanto o audiovisual amplia a mensagem e dá imagem, contexto e profundidade ao que está sendo dito. Quando essas linguagens se unem, elas conseguem sensibilizar, informar e provocar reflexão de forma muito intensa. No meu trabalho, essa união é essencial porque a arte precisa, além de emocionar, gerar consciência e movimento.
5. Que papel a arte tem na conscientização e fortalecimento da identidade da população negra?
A arte tem um papel fundamental, porque ela dá voz, visibilidade e reconhecimento. Ela fortalece a identidade da população negra ao valorizar suas histórias, suas raízes, sua cultura e sua resistência. Além disso, combate apagamentos e estereótipos, criando novos espaços de representatividade e pertencimento. A arte também educa e provoca debate, sendo uma ferramenta indispensável no enfrentamento ao racismo e na construção de uma consciência coletiva mais justa.
6. Pode contar um pouco sobre a experiência de trabalhar com depoimentos reais e o que mais te marcou nesse processo?
Trabalhar com depoimentos reais foi uma das experiências mais fortes do projeto. Ouvir histórias de preconceito, dor, resistência e superação deu ao documentário uma verdade muito profunda. O que mais me marcou foi perceber o quanto muitas dessas experiências ainda são silenciadas, principalmente entre jovens e dentro do ambiente escolar. Ao mesmo tempo, me tocou muito a coragem de cada pessoa em compartilhar sua vivência para contribuir com a reflexão de outras pessoas e fortalecer a mensagem do projeto.
7. Como você equilibra seu trabalho como compositor, cantor e produtor cultural?
Procuro equilibrar essas funções entendendo que elas fazem parte de um mesmo propósito. Como compositor, eu crio a mensagem; como cantor, transmito essa emoção; e como produtor cultural, transformo ideias em ações concretas. Cada área exige dedicação, organização e responsabilidade, mas todas se conectam no objetivo de fortalecer a cultura e gerar impacto através da arte. Esse equilíbrio acontece quando mantenho a verdade no que faço e o compromisso com a minha comunidade.
8. Quais aprendizados ou histórias você gostaria de compartilhar com outros artistas independentes que estão começando projetos sociais ou culturais? O mais importante é acreditar na força da própria história e entender que a realidade de cada território também é fonte de arte e transformação. Quem faz arte de forma independente enfrenta muitos desafios, mas também constrói uma trajetória muito autêntica. Um aprendizado essencial que carrego é que projetos sociais e culturais precisam nascer de um propósito verdadeiro. Quando existe compromisso, identidade e dedicação, a arte encontra caminhos. Acredito muito na importância de persistir, porque muitas vezes o reconhecimento vem justamente
da constância e da coragem de continuar.
9. Como festivais como o Papagena ajudam a fortalecer a cena artística e dar visibilidade a projetos com impacto social? Festivais como o Papagena são fundamentais porque abrem espaço para que produções independentes sejam vistas, valorizadas e debatidas. Eles fortalecem a cena artística ao reconhecer obras que trazem identidade, representatividade e temas urgentes para a sociedade. Além disso, ampliam a circulação de projetos com impacto social, conectando artistas, público e iniciativas que muitas vezes nascem longe dos grandes centros. Esse tipo de festival legitima trajetórias e incentiva novas produções comprometidas com transformação e consciência.
10. Que mensagem você deixaria para o público que vai assistir Stop Preconceito e conhecer seu trabalho? Minha mensagem é que o público receba o Stop Preconceito com o coração aberto e disposto a refletir. Esse projeto nasceu da vontade de provocar diálogo, gerar consciência e lembrar que o respeito precisa estar acima de qualquer diferença. Espero que cada pessoa que assistir possa sair tocada, repensando atitudes e compreendendo a importância de combater o preconceito em todas as suas formas. Mais do que uma obra audiovisual, esse trabalho é um convite à reflexão, à escuta e à transformação social.



Comentários